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O PODER DA LEITURA
Adelson Fernando

Quando o aluno se depara na Universidade com a leitura de produções científicas, logo se revela as suas dificuldades de entendimento compreensivo e um estranhamento com a linguagem apresentada nelas. Mas é o processo mental acrítico que favorece tal estranhamento.

Uma das grandes dificuldades que o aluno tem enfrentado no processo ensino-aprendizagem é assumir a prática da leitura crítica na construção e reconstrução do conhecimento, e isso se torna mais complexo quando ingressa na universidade onde lhe é exigido a habilidade do processo mental da reflexão crítica e da produção científica.

Entender a leitura, como exercício da cidadania, parte do pressuposto básico do poder de libertação que ela proporciona no sentido de fomentar uma autonomia para o sujeito que lê, enriquecendo o seu vocabulário e exercitando a sua imaginação. Esta liberdade, na imaginação do leitor, é perceptível quando ele consegue elaborar mentalmente os episódios, quando engendra o perfil dos personagens, interpreta falas, sintoniza as suas experiências pessoais e vive, de certo modo, os sentidos e os nexos das emoções reveladas nos textos que está lendo.

Dentre as múltiplas razões e argumentos possíveis acerca da relevância da leitura para a vida acadêmica, queremos estimular a reflexão da leitura em tempos de multimídia, de pluralismo cultural, de globalização da economia e das grandes transformações mundiais.

Falar em leitura é concebê-la como compreensão e visão do mundo, o que significa o entendimento do mundo e sua complexa rede de relações historicamente engendradas. Ler passa a ser uma qualidade que diferencia aquele que lê daquele que não gosta da leitura, o que percebe o mundo apreendendo-o como forma de domínio de campo e o que deixa o conhecimento passar sem sentido, sem se dá conta de suas contribuições e potencialidades.

As portas para o conhecimento processam-se na análise e crítica do observado e do experimentado, do pesquisado e analisado, da forma do pensamento, da leitura. A leitura mobiliza a imaginação, enriquece o vocabulário, recheando as possíveis lacunas mentais que são formadas por conta da rapidez das mudanças que o mundo moderno vem sofrendo. Neste sentido, o ato da leitura pode ser considerado como um dos últimos recantos da liberdade intelectual.

A leitura se faz necessária na medida em que liberta o leitor da clausura da ignorância, a ignorância do desconhecido, do pensado, e que pode provocar uma grande libertação da alma humana; conhecimento é luz que desvela, reconstrói e edifica.

Pelo fato da leitura ser considerada vital para o conhecimento da linguagem nossa e do outro, do nosso mundo e do outro e também de outros mundos, é que nos sentimos na responsabilidade de desafiar os nossos alunos a perceber que a leitura modifica o mundo, tornando-o mais rico e mais inteligível, na medida em que prolonga a vida em todas as suas formas. Ela cumpre, portanto, o papel na conquista pela cidadania.

Saber ler é uma condição indispensável para que o indivíduo participe de forma efetiva da construção e reconstrução da sociedade e de si mesmo, enquanto ser humano na sua totalidade; ela representa a constituição de um estímulo para o desenvolvimento do espírito humano. Deste modo, o leitor deve assumir uma atitude ativa, e não passiva, na prática da leitura. Ele deve encarar o ato de ler como um esforço de busca e de construção do seu conhecimento.

A leitura autêntica desencadeia uma atividade de reflexão. A atitude reflexiva, crítica, no ato de ler, permite que aprofundemos a nossa compreensão do mundo para que possamos empreender ações conseqüentes sobre ele; o leitor deve assumir um caráter ativo nesse processo, uma vez que todo texto exige que o leitor desvele aquilo que inclusive não está escrito explicitamente, mas está sugerido nas entrelinhas.

Sendo a leitura a compreensão dos outros, ela representa uma espécie de lente que nos possibilita ver os dados do mundo com mais verdade, mais inteligência, com mais visibilidade, com mais encantamento. Sem nos conhecer minimamente e sem conhecer o outro, não há como participar de maneira completa da vida, da convivência, da construção de uma sociedade.

Adelson Fernando é sociólogo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), professor da Faculdade Boas Novas e da Universidade Federal do Amazonas - UFAM


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